Entrevistas

Marília Franco discute o papel pedagógico das mídias

Durante o V Encontro Brasileiro de Educomunicação, o PaREDES.Brancas entrevistou a professora Drª. Marília Franco, que, no evento, foi mediadora da mesa “Educomunicação nas Políticas Públicas de Educação”, formada pelo jornalista Adauto Cândido Soares, da Unesco, de Brasília; pelo professor Dr. Fernando José Almeida, da Secretaria de Educação de São Paulo; e pela professora Dra. Cíntia Inês Boll, da Secretaria de Educação Básica, do MEC, de Brasília. Neste debate, ela abre uma discussão sobre o papel pedagógico das mídias, os desafios da Educação e a influência das novas tecnologias na sala de aula. Em entrevista ao grupo, ela ressalta pontos relevantes à área educacional.

PaREDES.BRancas – Existe por parte das mídias consciência do seu papel pedagógico? E nós, como sociedade, temos a dimensão desse papel social  voltado ao aspecto educativo?

Marília Franco – Bem, vamos por partes…  Primeiro, acho que a mídia não tem que ter a ideia de que ela tem de cumprir esse papel. Ela precisa ter a consciência de que ela cumpre o papel pedagógico; porque não existe a hora da pedagogia e a hora da não pedagogia; a educação é um momento de iluminação aleatória; a educação que merece ser chamada, assim como a comunicação que merece ser chamada. Numa e noutra, você tem o pressuposto de transformar o outro. Essa transformação não se dá o tempo todo; às vezes você vê 50 vezes um comercial na TV e diz: “Ah, já vi, que saco, não quero ver mais, mas tem um momento que ela bate de um outro jeito”. Aí você pensa: “Nossa, não tinha reparado nisso”. Isso acontece devido ao seu estado em especial. É nesse momento em que ocorre a comunicação e pode acontecer a educação; pode gerar uma transformação. De você para você mesmo, de você para a sociedade, de você com o outro, não importa. Isto é uma situação educativa em si. Independentemente da intenção do agente do outro lado. Nós não chegamos à sociedade do século XXI absolutamente audiovisuais à toa. Nós passamos o século XX inteiro aprendendo a interagir com a comunicação audiovisual através do cinema e da televisão, e, hoje, as crianças já nascem audiovisuais.

Porque elas nascem operando i-pads, i-phones, i-cocore-co, bico-de-pato… Para eles, é absolutamente natural. É normal passar o dedo para achar outra imagem, apertar botão, a cultura já é essa. E eles vão buscar a sua formação e a sua transformação ali. Nesse equipamento que traz para eles uma linguagem audiovisual. E, dessa forma, esses jovens vão sendo preparados para a linguagem audiovisual do caixa eletrônico do banco, do outdoor da informação do bilhete do metrô…  Tudo isso tem uma dinâmica audiovisual, que é transmitir uma informação através de imagens e de sons articulados arbitrariamente. O arbítrio é do realizador que quer juntar uma coisa com a outra para causar no seu telespectador um determinado efeito. E esperar que esse efeito seja transformador. Seja transformador no sentido de fazer o cara comprar um produto, no caso da publicidade, ou transformador no caso do cara aderir àquela mídia…

Então, por exemplo, vamos pegar uma coisa que ninguém dá bola: a chamada de programa. Você está assistindo ao “Jornal Nacional”, passa a chamada da novela das oito. A expectativa quando o sujeito a escolhe é fazer você aderir àquela questão, para continuar assistindo à novela, e não mudar de canal. Tudo isso, gente, é pedagógico. Você está induzindo alguém a ter um determinado comportamento. Induzindo no bom sentido, não estou, você está planejando. Você planeja milimetricamente. O realizador, o comunicador-produtor planeja milimetricamente para conseguir esse efeito pedagógico. Ele quer dizer para o espectador como ele deve agir dali a meia hora, dali a quinze minutos, dali a três dias.

A escola tem que entender isto e dialogar com isso enquanto escola. Quando a gente fala leitura crítica da mídia, não é para dizer que a mídia é ruim e a escola é boa. Isso era lá no século passado, nos anos 1980; e já não era bom. Essa ideia da leitura crítica da mídia no sentido de os meios serem horríveis; dizer que a televisão é o ópio do povo; isso tudo é bobagem. Já era bobagem naquela época, hoje em dia já é absolutamente superado qualquer perspectiva nessa direção. Então, a escola tem que incorporar a mídia como cultura do aluno e como cultura do docente; aquilo que eu falei lá na frente, o docente é o espectador, e ele tem que levar o espectador para sala de aula…

Hoje, a sociedade não funciona mais como antes. O acúmulo de informação é acessível a 90% das pessoas por meio de vários suportes, tecnologias etc., não exige mais que o indivíduo acione a memória. Então, ele não é mais um depositário de conhecimento. Ele tem que ser um indivíduo que consegue vislumbrar o conjunto de informação e selecionar. Hoje, o que a gente precisa aprender a fazer é operar com esse conjunto gigantesco de informação que existe na ponta do dedo; saber selecionar o que esse montão de informação me traz; e combinar para atingir o objetivo que me levou a buscar aquela informação. A gente saiu do paradigma acumulação-repetição e passou para o paradigma seleção-articulação. Então, se a escola hoje não entende que o papel dela é ensinar o indivíduo a selecionar e combinar segundo o objetivo, ela está perdendo o bonde da história. E as mídias são o principal suporte do processo de busca e seleção.

A combinação aí vai ser feita na cabeça da pessoa a partir daquilo que foi demandado para ela. Então, se você não encarar as mídias a partir desse ponto de vista, se você não entender que hoje não se ensina mais, que se guia a aprendizagem… Eu não sou mais o foco do saber, por mais que eu seja especializado. Onde isso fica muito claro é na relação médico-paciente. Porque os médicos, na maior parte das vezes, ficam furiosos quando o paciente chega no consultório com o diagnóstico, sabendo os exames que ele tem que fazer e já sugere o tratamento. O médico fica furioso porque ele pensa: “O que é que eu estou fazendo aqui?”, Porque o cara já pesquisou tudo na Internet. O papel desse profissional mudou. A sua responsabilidade pela saúde do paciente está mudando fortemente. Hoje, os pacientes não esperam que o médico faça milagres. Já debatem com o médico sobre o tratamento

Então, hoje o professor não é mais o Deus da sabedoria. Nem pode ser – nunca pôde, na realidade, mas muita gente se comportou assim. Atualmente, o professor tem que ser um guia de desenvolvimento cognitivo e entender que cada aluno é uma cabeça especial. Então, é muito complicado; agora, se você souber usar o material midiático até para conhecer esta particularidade cognitiva desse aluno, você estará no melhor dos mundos. Porque você pode fazer uma pequena seleção dos gostos. Você pode fazer uma pequena observação de qual é o caminho que esse aluno percorre para entender esse tipo de filme, para entender aquele tipo de programa de televisão; qual é o gosto midiático do aluno… Você tem várias janelas para entender aquela alma e como fazer com que ela caminhe para o melhor aproveitamento do potencial cognitivo dessa pessoa.

PaREDESBRancas – É um desafio, inclusive para os professores mais tradicionalistas a questão das novas tecnologias?

Marília Franco – A tecnologia… A tecnologia não faz nada.Ela é meramente um suporte de uma linguagem. Então o que você tem que discutir é a linguagem que ela carrega. Ou as linguagens que aquela tecnologia carrega. E como operar aquelas linguagens e como elas podem ser transformadoras… Portanto, comunicar e educar. Porque primeiro comunica, depois educa. Essa é a ordem. Não tem outro jeito, a ordem é essa: primeiro comunica, quer dizer primeiro te captura, primeiro te seduz, primeiro te compromete… depois você vai descobrir o processo de transformação que você teve a partir disto que foi comunicado; e aí você pode ser considerado educado. Para o bem e para o mal. Também esse é outro pedaço. Educação não é bom. Educação é transformação. Pode ser para o bem e para o mal. E você tem educações para o mal que são extremamente eficientes… Tem um monte delas. Porque também esse mal depende de um monte de coisas.

Eu sempre uso como exemplo dessa educação que aparentemente é uma educação para o mal, mas que supria um mal maior e transformava em bem, que era o personagem agressivo do Garibaldo, no Vila Sésamo. O Vila Sésamo cumpriu um objetivo muito preciso que era fazer o desenvolvimento de crianças dos guetos de Nova York que não frequentavam a pré-escola e quando chegavam na escola no primeiro ano, chegavam com uma defasagem muito grande; defasagem cognitiva em todos os sentidos: social, de conhecimento mesmo, de desenvolvimento, cognitivo, tudo isso. Então eles bolaram um programa a partir de uma longa pesquisa das deficiências, dos problemas que os professores encontravam… Porque estas crianças chegavam em sala de aula misturadas a crianças bem informadas, com pré-escola, com família estável e tal, e elas entravam totalmente soltas, na maioria de famílias desagregadas, crianças submetidas a violências, crianças que ficavam trancadas dentro de casa porque a rua era perigosa e a mãe tinha que sair prá trabalhar…então eles descobriram que a televisão podia ser um bom meio principalmente porque as crianças ficavam sentadas o dia inteiro vendo televisão. Então eles colocaram um personagem mau e amedrontador. Eles foram inicialmente criticados sobre isso. E eles argumentaram que esse personagem é a representação de um tipo de situação que essa criança vive dentro de casa. Que é um pai bêbado que bate na mãe ou bate nela, que é um irmão drogado que entra e arrebenta tudo, e essa criança é acuada e não sabe como reagir, ela não aprendeu a reagir.

Então àquele personagem que era feio e agressivo, os outros personagens reagiam e aí no processo de identificação a criança começava a descobrir que era possível reagir à agressão. Que era possível você ter uma atitude de reação e autoproteção. Era esse o fator pedagógico daquele personagem. Eu sempre uso o exemplo desse programa que é lá dos anos 70 e que fez um sucesso tão grande na América Latina inteira, tal. O programa era refeito em cada país com a supervisão deles… eles adaptavam o desenvolvimento dramáticos às situações locais; em todos os países o programa tinha que ter esse conjunto de personagens, e sempre tinha  o personagem agressivo, que era prá estimular as crianças a aprender a reagir. Então era uma má educação, entre aspas, prá conduzir a um comportamento adequado de proteção.

Tudo a gente tem que relativizar ao momento, ao objetivo, ao espaço propriamente planejado; nada é absoluto, nada é um modelo único que vai servir prá todas as coisas. É complicado você operar pedagogicamente num patamar tão flexível, tão fluído. E os professores não são preparados prá isso. Muito ao contrário. Então, ou a escola muda esse paradigma, ou então a gente vai passar a vida inteira correndo atrás do prejuízo…

PaREDES.BRancas – Pensando na necessidade de mudanças na educação…

Marília Franco – A primeira coisa que tem que ser feita é o professor começar a acreditar nele. Nele pessoa. O que eu tenho de bom prá trocar com esses alunos. Por que eu virei professor. Resgatar essa motivação, resgatar essa situação. Quando ele se levar inteiro prá dentro da sala, ele vai encontrar a metodologia dele. Não tem muito mistério. O que precisa é a escola deixar de ser autoritária com o professor. A escola é autoritária com o professor. Ela pré-determina como o professor deve agir, o que ele deve fazer dentro da sala e que resultado ele deve obter. A própria escola não dá autoridade ao professor. Então, como ela espera que a sociedade dê, reconheça essa autoridade, que os alunos reconheçam essa autoridade? O burocrático da escola é a primeira que corta as pernas do professor…

PaREDES.BRancas – O burocrático se sobrepõe ao pedagógico na escola?

O burocrático não é nem da escola, é da Secretaria da Educação, do Ministério da Educação, por melhor intenção que tenham, se sobrepõem ao pedagógico. E o burocrático já começa na faculdade de pedagogia: o professor de metodologia. É o primeiro burocrata chato. Por mais conhecedor, ele já está reproduzindo o que de mais autoritário jogaram sobre ele. E ele não estimula o aluno a ser pessoa. O aluno tem que ser professor. Mas ninguém é professor sem ser pessoa.

"A escola tem que dialogar enquanto escola. Quando a gente fala leitura crítica da mídia, não é para dizer que a mídia é ruim e a escola é boa. Isso era lá no século passado, nos anos 1980; e já não era bom"

“A escola tem que dialogar enquanto escola. Quando a gente fala leitura crítica da mídia, não é para dizer que a mídia é ruim e a escola é boa. Isso era lá no século passado, nos anos 1980; e já não era bom”

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